Ora aqui estou eu mais uma vez para fazer uma review a mais uma versão do Ubuntu. Já faço isto há tantos anos que já não sei se serei capaz de parar. Para não variar, levanto a seguinte questão: estaremos perante o melhor Ubuntu de sempre, ou será que este avanço é sobretudo “um passo para trás”? Vamos lá esmiuçar isto e tirar as devidas conclusões.
Finalmente, um novo aspecto
Não, hoje não é dia 1 de Abril nem aquele que vos escreve enlouqueceu: o Karmic Koala ganhou mesmo um novo aspecto. Isto era prometido desde quando? Não tenho a certeza mas julgo que é desde a versão 7.04 (Feisty Fawn), ou seja: há dois anos e meio que a comunidade Ubuntu espera por uma “lavagem de cara” deste sistema operativo. A cada lançamento o pessoal da Canonical (incluindo o Mark Shuttleworth) anunciava que “desta vez é que vamos ter um novo artwork”, mas isso só agora é que se concretizou.
As novidades a este nível podem-se resumir a:
- O visual do “boot” ficou muito mais bonito: o logótipo do Ubuntu passou a aparecer em branco sobre um fundo preto e castanho escuro; também o menu de login surge com essas cores e passou a disponibilizar uma caixa onde se encontram os nomes dos utilizadores, tornando assim mais rápida a autenticação (basta agora seleccionar o utilizador e colocar a password).
- Um novo tema que tem como base o famoso “Dust”: a margem da janela é mais fina e tem uma cor castanha escura (sinceramente nem sei muito bem que cor é esta); o resto das janelas continuam a ter um tom cinzento (apesar de ser um pouco mais escuro) e os objectos seleccionados e as barras de progresso herdaram a cor do tema Dust (bordeaux escuro). Já agora, o tema mantém o nome antigo: Human.

- Os ícones antigos foram substituídos por uns que andavam a fazer bastante sucesso no mundo GNOME: os Humanity. São muito bonitos, sim senhor, sobretudo as pastas e os ícones da área de notificação (essa área do painel ficou demasiado parecida ao Mac OS X).

Centro de Software Ubuntu
É uma daquelas novidades que neste lançamento tem pouca importância mas que a longo prazo (daqui a dois ou três lançamentos) será um dos principais programas deste sistema operativo. Por enquanto ele apenas substitui o antigo “Adicionar/Remover Programas”, mas mais tarde ele será todo o centro da gestão de software no Ubuntu, substituindo também o Synaptic, o gestor de fontes de software, o gestor de actualizações e o GDebi. Esta será, sem dúvida, uma aplicação chave no mundo Ubuntu (mas, infelizmente, não tão completo como o YAST do openSUSE — que vai muito mais além do que a mera gestão de software).
Como ponto negativo tenho de referir que o Centro de Software Ubuntu deu um passo para trás face ao antigo “Adicionar/Remover Programas” já que deixou de ser possível organizar as aplicações disponíveis por popularidade de download, o que faz com que os novatos que usavam essa funcionalidade para saberem quais os programas mais famosos para determinadas tarefas, fiquem sem esta útil referência.

Aumento da performance
A velocidade do sistema operativo disparou e de que maneira. Para isso contribuíram as mudanças no uso do Upstart (que já é usado no Ubuntu desde a versão 6.10 Edgy Eft), o ext4 como sistema de ficheiros predefinido e as limpezas feitas em bibliotecas de software antigas que deixaram de ser usadas pelo GNOME.
Para ser sincero, não é a tão falada velocidade do boot que mais me espanta mas sim o aumento de resposta na utilização do sistema e, sobretudo, a velocidade de encerramento do PC (aqui é que ele está imparável não levando mais do que 3 ou 4 segundos a desligar).
Netbook friendly
Todo o sistema operativo foi optimizado para ser utilizado em netbooks — não só a nível de drivers como também (e sobretudo) a nível visual, como por exemplo:
- As notificações que se estrearam no Jaunty (notify-osd) sofreram um encolhimento, tanto a nível do tamanho do “balão” como do tamanho das letras, passando assim a ocupar menos espaço nos pequenos ecrãs destes mini-portáteis (no Asus Eee PC de 7 polegadas, a percentagem de ecrã ocupado era uma autêntica tragédia grega).
- As janelas do Nautilus (o gestor de ficheiros do Ubuntu — tipo Windows Explorer) passaram também elas a ocupar menos espaço vertical no ecrã, já que na barra de ferramentas os ícones deixaram de ter por baixo deles a sua descrição, poupando ali vários pixeis que fazem toda a diferença em ecrãs pequenos.

O Pidgin foi substituído pelo Empathy
Quando comecei a escrever esta análise coloquei este tema na secção “O que não gostei no Karmic”, mas, após alguma reflexão, considerei que isto não passa de um gosto pessoal e que muita gente vai preferir este novo messenger ao Pidgin.
Que novidades/vantagens traz o Empathy face ao Pidgin? Em primeiro lugar este messenger é um projecto do Gnome e por isso é normal que a integração com os outros programas seja muito maior. Em segundo lugar há que destacar que o Empathy tem como base a framework Telepathy que, segundo os entendidos na matéria, é uma plataforma com bastante potencial e poderá vir a ser adoptada pela grande maioria dos softwares de comunicação. Por fim, há que sublinhar que os programadores deste IM estão comprometidos a suportar ao máximo as funcionalidades dos vários protocolos (MSN, XMPP, Yahoo, etc) — esta é uma das grandes diferenças para com o Pidgin que, até há bem pouco tempo, deixava para trás algumas funcionalidades que os utilizadores tanto desejavam (como é o caso do áudio e vídeo).
Eu, por enquanto, vou continuar a usar o Pidgin não só porque está muito mais estável mas também porque gosto mais da sua interface. São gostos.
Outras coisas
- A nível de som os melhoramentos são mais que muitos:
- As preferências de som foram totalmente remodeladas, apresentando agora uma janela mais simples, com as funções arrumadas em 5 separadores diferentes (Efeitos Sonoros; Equipamento; Entrada; Saída; Aplicações), desaparecendo assim o equalizador ALSA que tínhamos antes, o que se apresenta como um pau de dois bicos porque, por um lado, descomplica as preferências de som, mas por outro deixam de estar disponíveis “out of the box” funções que apareciam no dito equalizador. Na minha opinião, considero que mesmo assim o saldo é claramente positivo.
- Correcção de bugs de som: Desde que comprei o meu portátil (há quase 2 anos) que tenho tido problemas de som com todas as distribuições de Linux. Se no inicio nem som tinha, pelo que era obrigado a activar um modulo especifico nas definições do ALSA, com o lançamento do Intrepid Ibex (Ubuntu 8.10) o som passou a funcionar mas vi-me obrigado a desligar o botão do CD no equalizador do ALSA para que um irritante “zumbido” desaparecesse das minha colunas. Ora, com o lançamento do Karmic o som passou a funcionar a 100%, sem qualquer tipo de intervenção da minha parte. Acreditem que, para mim, isto é uma grande e espectacular novidade.
- O NetworkManager foi melhorado e apresenta agora um útil botão para desligar a rede wireless à qual estamos conectados. Pode parecer coisa sem importância mas torna a gestão das redes wireless muito mais simples. Outra das novidades deste gestor de redes é o surgimento do menu “Mais redes” no qual são colocadas mais redes wireless disponíveis, evitando assim que no caso de existirem muitas redes, todas elas apareçam no menu principal, desaparecendo assim a enorme lista que antes tínhamos e que nos levava a navegar por ela através de um barra de scroll.

- O Karmic tem a “honra” de estrear o Ubuntu One, o novo serviço de alojamento da Canonical. Trata-se de um serviço semelhante ao Dropbox que oferece 2gb de espaço num servidor (cloud) para que possamos colocar lá os nossos ficheiros. A integração deste serviço dentro do sistema operativo permite-nos ter uma pasta no Nautilus que faz com que os ficheiros que lá estão, estejam em plena sintonia com o servidor e com os outros PCs nos quais também utilizamos a nossa conta do Ubuntu One.
- Não sei bem se esta é uma novidade mas, pelo menos no meu PC, o Pidgin passou a suportar símbolos unicode nas mensagens pessoais. Antes estes eram substituídos por uns caracteres esquisitos (mais concretamente, rectângulos), o que se tornava um pouco irritante. Possivelmente esta novidade até se estende a mais programas.
O que não gostei (ou gostei pouco) no Karmic
Não tenho muito por onde criticar, mas o que é certo é que o Ubuntu 9.10 não é perfeito:
- Sinceramente, não sei há quantos anos é que eu me queixo desta falha, mas a Canonical insiste em achar que esta funcionalidade não é uma prioridade: um gestor gráfico do GRUB. Esta é uma daquelas situações que se está a tornar inadmissível e impensável face a outras distribuições que resolvem (e bem) essa situação (openSUSE, Mandriva, etc). Refiro isto em todas as análises que fiz até hoje, por isso, acho que este é o meu “bug” de estimação.
- O Flash incluído nos repositórios da versão AMD64 (64 bit) continua a ser o de 32 bit, tendo assim de utilizar as ia32-libs que mais não são do que bibliotecas que permitem correr programas compilados para 32 bit em distribuições de Linux de 64 bits. Mas, como é óbvio, a performance é pior do que quando utilizado nas distros de 32 bits (e, só para terem noção da gravidade disto, a performance do flash de 32 bit em sistemas 32 bit já é muito, muito má).
Como é que se resolveria este problema? Simplesmente incluiria-se a versão alpha do Flash de 64 bit para Linux. “Ah e tal, como é alpha é demasiado instável para ser utilizado no dia-a-dia”. Não, nada mais errado: eu estou a utilizar o Ubuntu Karmic de 64 bit com o Flash de 64 bit e posso-vos garantir que esta versão é ainda mais estável e rápida do que a de 32, e, por isso, não vejo qualquer impedimento para ser incluindo nos repositórios.
- A decisão de colocar as notificações um pouco mais abaixo do que estavam anteriormente (criando um espaço entre o painel e a notificação), está profundamente errada. Qual o argumento que os programadores usaram para optarem por esta posição? “Os utilizadores queixavam-se que a bolha de notificação tapava a barra de pesquisa do Firefox”. Meus amigos, a sério… vamos mesmo colocar a bolha num local sem sentido só porque está a tapar uma funcionalidade de um único programa, quando este está maximizado? Mais: a nova posição das notificações passou a tapar as tabs do Firefox que estão no lado direito, o que leva a que o utilizador deixe de saber quais são as que estão lá debaixo durante os segundos em que aparece uma notificação, o que me parece bem mais grave do que não ver uma caixa que sabemos exactamente onde está. Eles devem saber melhor do que eu que basta colocarmos o rato em cima da notificação para que ela desapareça e para que possamos assim usar normalmente toda e qualquer funcionalidade da janela que está por baixo. Com toda a sinceridade, acho que esta opção de usabilidade é simplesmente absurda. Felizmente, não sou o único a achar isso.

Resumindo e concluindo
Ora, mais uma vez chego à conclusão de que estamos perante a melhor versão de sempre do Ubuntu. Admito que no primeiro contacto que tive com o Karmic, durante o seu desenvolvimento (Alpha 6), fiquei muito apreensivo porque ele estava demasiado instável em comparação com o Jaunty, na mesma fase. A versão beta também não me agradou, mas mais ou menos uma semana depois a distro estabilizou e passei a usa-la diariamente.
Como pontos fortes há que destacar a nova aparência do Ubuntu; o aumento da qualidade, da performance e da estabilidade; a resolução de pequenos problemas de usabilidade e, não menos importante, a inclusão de algumas inovações face aos sistemas operativos concorrentes (o Ubuntu One é um bom exemplo disso mesmo).
Pelo lado negativo tenho de destacar a teimosia e/ou o autismo da Canonical. Pessoalmente, as mudança do comportamento das notificações e a insistência em não criar um gestor gráfico do Grub são as que mais me chateiam. Se no caso das notificações, mesmo assim, há gente que prefere como estão agora (clara minoria), no caso do gestor gráfico do Grub toda a gente deseja que ele apareça de uma vez por todas. Este pedido não é de hoje nem de ontem: este pedido tem anos!
Bem, espero que esta análise tenha tocado nos pontos essenciais e que ajude a esclarecer as inovações e retrocessos deste lançamento. O artigo era para incluir mais “esmiuçamento” mas, como sempre, o tempo foi mais curto do que eu desejava. Se se justificar, mais tarde faço um artigo que complemente este. Até lá!
NOTA: Quem quiser fazer o download da versão final do Karmic pode fazê-lo através desta página do Darkstar (servidor do Instituto Superior Técnico).